Numa comparação extrema, de um lado existe a turma de programas como American idol, com seus cantores histéricos e suas interpretações exageradas e caricatas. Do outro, existe James Blake, elegante, minimalista e cujo encanto é um enigma. Uma das atrações mais esperadas do Sónar São Paulo, que acontece em maio, esse inglês de 23 anos é um ateu apaixonado pela espiritualidade do gospel, um pianista clássico que se incomoda com essa descrição e um fã de eletrônica (dubstep em particular), que faz música sem batidas.
Paixão por gospel e dubstep
Seu primeiro e único disco até agora, o elogiado James Blake, lançado no começo de 2011, foi escolhido um dos melhores do ano passado por diversas publicações, do jornal The Guardian à revista Mixmag. Em meio a tanto artistas de soul retrô, Blake e seu som futurista e docemente melancólico foram apressadamente considerados um sopro de renovação para o gênero. O único problema é que ele também não se considera, com certa razão, um cantor de soul.
"Por favor, entenda: eu amo soul, mas não canto como um soulman", diz ele, por telefone. "Não tenho essa intensidade. Eu canto as notas da forma como as escrevo. Não improviso. Também sou apaixonado pela espiritualidade do gospel, por exemplo, embora não tenha religião. Talvez esteja mais próximo de cantores de blues e folk. Mas mesmo assim...".
A chave para entender o som e a personalidade de James Blake é o piano. Foi em torno dele que o artista de 1,93m passou a infância e a adolescência e evoluiu como músico. Filho (único) de James Litherland, guitarrista do grupo de jazz-rock Colosseum, Blake teve muitas vezes o instrumento como o seu melhor amigo. Talvez isso explique a sensação de solidão que sua música passa para o ouvinte.
"Realmente, como filho único me acostumei com a solidão e nunca me incomodei com isso. O piano sempre foi minha companhia e ele é, sem dúvida, o coração da minha música", explica Blake, que toca o instrumento desde os cinco anos de idade. "Mas o fato de eu ter formação clássica não quer dizer muita coisa. O fato de alguém saber ler partituras não significa que ele seja capaz de criar algo realmente inovador".
Dos discos do pai, o inovador Blake tirou influências de Joni Mitchell e Nina Simone, das quais assimilou o que chama de "toque feminino no piano".
"É uma técnica muito especial de tocar, que coloca o piano como um discreto companheiro da voz. Com as duas, aprendi também a valorizar muito o espaço e o silêncio. É preciso deixar a música respirar".
Durante a faculdade, Blake estudou tanto quanto saiu, divertindo-se com os amigos nos principais clubes de Londres, onde nasceu, em particular nas noites de drum and bass e dubstep.
"Adoro drum and bass, mas é um som agitado demais para o meu estilo de compor. O dubstep é mais lento e me envolveu mais. Na faculdade, me apaixonei também pelo Outkast, um grupo que estende os limites do hip-hop".
Parceria com Bon Iver
Foi assim, misturando todas essas influências, que Blake chegou ao som absolutamente incomparável registrado no seu disco solo e nos cinco EPs que lançou, todos eles gravados em casa, praticamente sem acompanhamento (inclusive de baterias). Num deles, Enough thunder, regravou Joni Mitchell (A case of you) e fez uma parceria com o craque folk Bon Iver (Fall creek boys choir).
"É uma parceria em que quero investir mais no futuro", diz ele sobre Iver. "Temos boas coisas em comum".
Para o esperado segundo disco, que deve ser lançado até o fim do ano, o gigante prodígio quer trazer para o estúdio um pouco do calor que conseguiu, ao vivo, com sua banda.
"Acho que pode ser legal ter um baterista em algumas faixas, mas não em todas".
No Brasil, Blake vai mostrar também o seu lado DJ, em uma apresentação à parte.
"Como DJ, sou bem mais barulhento do que as pessoas possam imaginar pelos meus discos", garante.
Fonte:agência O Globo










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