Abuso da tecnologia cria um novo transtorno: o iDisorder

Descontrole no acesso e no uso da rede é motivo para buscar tratamento




A fonoaudióloga Paula*, 38, está em uma mesa de bar com amigos, mas as atualizações que não param de chegar em seu smartphone parecem muito atrativas. Então, ela deixa a confraternização um pouco de lado e se transporta para o mundo da tecnologia. A situação é comum e, alguma vezes, alguém precisa até tirar o aparelho de suas mãos. "Estou tentando controlar, mas é difícil, pois são coisas fáceis de mexer e de acessar", diz, sobre os dispositivos que nos deixam sempre conectados.

Essa dificuldade de se desligar do contato que os smartphones e outros suportes oferecem virou tema de pesquisa do norte-americano Larry D. Rosen, professor de psicologia da Universidade do Estado da Califórnia (EUA).

Neste ano, Rosen lançou o livro "iDisorder: Understanding Our Obsession with Technology and Overcoming its Hold on Us" ("‘iDistúrbio’: Entendendo Nossa Obsessão com a Tecnologia e Superando o Controle que Ela Tem sobre Nossas Vidas", em tradução livre).

O autor lista uma série de transtornos psicológicos resultantes do uso abusivo da tecnologia, como o narcisismo, a obsessão e o vício (veja quadro abaixo). "Se você já exibe sinais de um transtorno específico como o narcisismo, a tecnologia pode tornar isso pior", explica.

Dependência. O escritor Rodrigo*, 30, brinca que "está limpo" há cerca de dois meses, pois conseguiu controlar a forma como acessava o Facebook. Há cerca de seis meses, ele começou a trabalhar em casa para se dedicar à literatura. Foi então que percebeu que a rede social consumia muito de seu tempo útil, pois via várias atualizações, mas não prestava real atenção em cada conteúdo.

"Na década de 1980, era a TV que promovia a alienação. Hoje, a rede social faz esse papel. Para escrever, preciso me transportar para o personagem sem ser interrompido, e o Facebook me impedia de fazer isso", conta.

Para voltar a se concentrar e melhorar seus textos, Rodrigo mudou a visualização das atualizações de seus contatos. "Saí desmarcando (cancelando a assinatura) todo mundo e foi uma sensação gostosa", conta. Assim, em seu "feed de notícias", Rodrigo recebe apenas o conteúdo de poucas pessoas como da namorada, além de contatos profissionais.

Estímulo. Segundo o médico psiquiatra Dante Galileu, professor da residência do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o uso em excesso de aparelhos tecnológicos e das ferramentas da internet provoca estímulos ao cérebro que podem levar à perda de concentração, além de maior ansiedade. "A pessoa pode começar a se isolar socialmente e, com isso, contribuir para uma doença que ela já tem predisposição", diz.

É preciso procurar tratamento quando a pessoa prejudica suas atividades diárias por não controlar o acesso e uso da rede. Segundo Galileu, em alguns casos, o acompanhamento psicológico é suficiente, mas situações moderadas ou graves precisam de medicamentos.

Idade. Atualmente, a conexão 24 horas por dia é vivenciada por pessoas de todas as idades. Mas, segundo o psiquiatra Frederico Duarte Garcia, coordenador do Ambulatório de Dependências Químicas do HC da UFMG, a adolescência é "um período de fragilidade para o desenvolvimento de praticamente todas as adicções".

Segundo ele, o cérebro dos jovens está em desenvolvimento, e expor a mente a atividades que podem levar ao vício, como jogos virtuais, leva à chance de dependência da web. Para aproveitar todo recurso de maneira saudável e em qualquer idade, Garcia indica a moderação. "A tecnologia deve ser considerada um meio para aproximar as pessoas e, não, uma finalidade de vida para que elas interajam", fala.








Fonte: O Tempo


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